A Organização Mundial da Saúde atualizou suas orientações para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência. A nova diretriz reúne intervenções que podem ser adotadas ao longo da vida e deixa um recado importante: prevenção não significa garantia de que uma pessoa nunca terá demência.
A estimativa divulgada pela OMS é que fatores modificáveis estejam associados a até 45% do risco. Isso não quer dizer que uma mudança isolada reduza o risco individual exatamente nessa proporção. O número descreve a parcela de risco relacionada, em nível populacional, a fatores sobre os quais pessoas e políticas públicas podem agir.
Quais medidas têm apoio das evidências?
As recomendações combinam hábitos cotidianos, acompanhamento de doenças crônicas e redução de exposições ambientais. Entre os pontos destacados estão:
- praticar atividade física de forma compatível com a condição de saúde;
- não fumar e reduzir o consumo de álcool;
- manter alimentação equilibrada e variada;
- controlar pressão arterial, diabetes e colesterol com acompanhamento adequado;
- preservar o convívio social e participar de atividades cognitivamente estimulantes;
- avaliar e tratar a perda auditiva quando indicada;
- reduzir a exposição à poluição do ar sempre que possível.
Essas medidas não servem apenas à saúde cerebral. Elas também diminuem riscos cardiovasculares, ajudam na manutenção da autonomia e favorecem um envelhecimento mais saudável.
Por que pressão e diabetes entram nessa conversa?
O cérebro depende de uma circulação sanguínea adequada. Hipertensão, diabetes e colesterol elevado podem danificar vasos e aumentar a probabilidade de eventos vasculares, inclusive pequenos danos acumulados ao longo dos anos. Tratar essas condições não é uma receita específica contra demência; é parte de um cuidado integrado que protege cérebro, coração, rins e outros órgãos.
Quem já usa medicamentos não deve interromper ou alterar doses com base em notícias. O ajuste precisa ser individualizado por profissional que conheça os exames, sintomas e outras condições da pessoa.
Suplementos previnem demência?
A atualização da OMS não recomenda vitaminas B e E, ômega 3 ou multivitamínicos com a finalidade de evitar declínio cognitivo quando não há deficiência diagnosticada. A ausência de benefício comprovado para esse uso não significa que nutrientes sejam irrelevantes, e sim que cápsulas não substituem diagnóstico, alimentação adequada ou tratamento de uma carência real.
Produtos anunciados como “memória garantida”, “rejuvenescimento cerebral” ou prevenção certa devem ser vistos com desconfiança. Nenhum suplemento elimina todos os fatores envolvidos em uma condição complexa.
Estimulação cognitiva é fazer palavras cruzadas?
Atividades desafiadoras podem fazer parte da rotina, mas saúde cognitiva não depende de um único jogo. Aprender algo novo, ler, conversar, participar de grupos, tocar um instrumento, cozinhar com planejamento ou realizar tarefas que exijam atenção são maneiras diferentes de manter o cérebro ativo. A participação social também importa e ajuda a combater o isolamento.
Quando procurar avaliação?
Esquecimentos ocasionais são comuns, especialmente em períodos de estresse ou sono ruim. É recomendável buscar avaliação quando a perda de memória ou outras mudanças passam a interferir no pagamento de contas, preparo de refeições, deslocamentos, conversas ou segurança. Alterações de comportamento e dificuldades de linguagem também merecem atenção.
Identificar a causa é importante porque alguns problemas que afetam memória e atenção podem ser tratáveis. Mesmo quando existe uma doença neurodegenerativa, acompanhamento precoce ajuda a organizar cuidados e preservar autonomia pelo maior tempo possível.
